Temporada 6, episódio 01 – O Daltônico
“-André, que número tu enxergas neste mosaico?” – perguntou o oftalmologista. “-86”, respondi para ele. “- E neste outro? Que número?”- perguntou novamente o oftalmologista, com a testa enrugada. “5, estou vendo o número 5” – respondi. “André, por acaso você conhece os números? Onde tu estás vendo um 5 ou um 86 nesses mosaicos?” – nesse momento era perceptível a leve irritação do “tio” que está em minha frente. Sem entender o motivo da irritabilidade e da pergunta, respondi: “Claro que eu conheço os números. Sou o mais inteligente da 5ª série e minha matéria preferida é matemática!”. Peguei os mosaicos na mão e com o dedo “desenhei” os números: “O número 5 está aqui e o 86 aqui!”, indiquei. Naquele momento, as palavras que o oftalmologista me disse soaram como uma revelação bombástica que respondia boa parte dos meus medos: “André, tu é daltônico!”. Claro, como eu ainda não havia pensado nisso? O desgosto pelas aulas de desenho no meu jardim de infância muito se dava porque meus colegas riam de mim ao ver que a cor das minhas montanhas não era “do verde que eu enxergava” e que o tronco das minhas árvores era um “marrom diferenciado”.
Daltonismo é um defeito na percepção de algumas cores, geralmente vermelho e verde, geralmente originada por problemas genéticos. Daltonismo por causa genética, claro! Uma ótima herança de meus pais, mas antes isso do que qualquer outro problema.
Enquanto uns são daltônicos por motivos genéticos, outros são daltônicos por birra – não enxergam as cores porque não querem. Assim como o pior cego é aquele que não aceita os fatos como são, o pior daltônico é aquele que não consegue ver as reais cores da vida. Sim, eu sei, é poético, mas se tem uma coisa chata e desanimadora é estar ao lado de alguém que reclama de todas as coisas. Não consigo ver a graça na vida de alguém que não consegue ver as cores do sol em um dia frio de inverno, ou tão pouco das nuvens, que anunciam chuva, em uma tarde de calor. Dizem que a vida da pessoa termina quando ela deixa de sonhar e acrescento mais: a vida da pessoa termina quando ela se torna “daltônica-real”. Pessoas assim devem ser aquelas que não cantam a música que mais gosta, que não aprecia o sabor de uma boa pizza, ou que não sentem nenhum prazer durante o sexo. Amargas, desanimadas e rabugentas. O daltônico-real reclama da música alta da festa que ele vai, do carinho que ganha da pessoa amada e dos enfeites de Natal no dia 25 de dezembro. Acomodada, previsível e enfadonha. O daltônico-real sai de casa por obrigação e dá bom dia por simples educação.
Como se não fosse bastante, o daltonismo-real é contagioso. O portador dessa anomalia tem a capacidade de transmitir isso rapidamente. É epidêmico. É impossível, para o portador dessa doença, sentir-se bem ao lado de quem consegue desfrutar do espectro de cores que a vida proporciona. E como criticam! Nada está de acordo. Assim fica difícil.
O daltonismo que eu sofro, o genético e que não reconhece algumas cores do espectro, não tem cura. Enquanto o outro, só não se cura quem não quer...
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